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DISCURSO EM PROL DO ARTISTA     

 

(do livro “Beijo de Luz”)

 

Bendito seja todo o poeta no mundo! Admirável ser, profundo.
Que jamais se suplanta e não se arrepende de fazer o que faz.
Porque este ser sempre se levanta quando deveria ficar em paz?
E vão por aí, talvez em vão, trocando por rimas as coisas do coração.
Que pobres seres estes profetas,
Que lhes basta a pétala da flor para que esqueçam a asa da borboleta.
Estes são os poetas, que com uma só dor, do céu vão à sarjeta.
Sim, caminham apartados e amam a tudo.
Única vocação no coração: Não ser mudo!
Então que se danem e etc também. Mas que ensinem, que enlevem e elevem.
Que conquistem corações e depois não os carreguem.
Sina! Serpentina de vida, trança de fantasia, fazem assim suas palavras...
Recitam sua agonia. Para quê? Por que não morrer antes disso?
Há gente que dança (a seu ritmo). Outros cantam (suas músicas). Uns apreciam (suas pinturas). E repetem (suas palavras). Mas não as cometem, se divertem.
Penas duras. Êta humanidade feliz! E o poeta sofre, mas não diz.
Canta a sua dor de um jeito que pareça verdade e desaparece,
Canta a sua alegria de maneira que ela apareça e lhe capta quem merece.
Canta a sua tristeza para alguns dizerem que está uma beleza,
Mas canta de todo o jeito uma coisa que ninguém cantaria:
Seu ser. Sua poesia. E é. Pois é! Este é o defeito de todo poeta, ser assim até o fim.
Filhos da história da humanidade: Que sois sem os poetas, músicos, pintores, filósofos e profetas? Quem mais vos tem cursado a verdade?
Filhos da miséria que é coisa séria que vos causa o capitalismo:
Quem sois vós sem os pensadores, escritores, escultores e compositores?
Humanidade enfim, como alimentais estes heróis? Deixais para depois?
Essa coisa que no fundo mais nos move, alimenta, informa, cria, sustenta, resolve e decide?
Que fazeis ao olhar um quadro? Existiu tinta, tela, pincel, tempo que viveu o pintor a criá-lo. E o escultor com seu cinzel? Como dormir, comer, alimentar o corpo que contém aquela alma viva assim a criar? E a criação não tem preço...
Mas o que faço, tirar um tempo para na lua dar um abraço,
Caminhar abandonado pela vida afora, purgar a ferida até chegar a hora de dizer coisa bonita. Quantas músicas vós cantais e dançais? Como me alimentais?
O artista cria sua arte mesmo que não lhe paguem.
É por isso que a ciência teve de graça as melhores informações de suas bases.
Sem arte não há história, informação, criação nem evolução.
Então humanidade, a bem da verdade toda, alimente vossos próprios pendores.
Esses bebedores da água do oceano especial que está além do bem e além do mal.
Paga-se tanto por presídios para bandidos, por que não pagar menos pelos libertadores?
Paga-se tanto por um status a mais, por que não pagar menos pela paz?
Os artistas todos, nada têm à venda. Têm a vos tirar dos olhos a venda que já não possuem nos olhos seus. Têm a vos contar os segredos que não agüentam em si mesmos.
E vos darão de graça coisa que não tem preço: um coração que guardam com apreço.
Vós humanidade que disto precisais: aos vossos artistas alimentais?
LIBERDADE!

Jairo Martins