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VAZIO

(do livro “Beijo de Luz”)

 

É preciso muito silencio e madrugada,

Muita boca calada,

Para que se ouça o som.

Na calada da noite, na escuridão,

Ter claridade é bom.

Consulte seu amargo, veja qual o fardo,

Espere. E receba o tom.

Não conte com nada, com ninguém.

Só a você mesmo você tem.

Enfrente-se. Encare-se.

Nem todos têm um momento assim.

Coragem. Faça essa viagem.

  até o fim.

 

Visionário dos sentimentos, amante dos grandes momentos.

Dono de grande interior, criativo ao extremo, um curtidor!

Todo aquele que se considera poeta ou pensador

Deve se propor tais experimentos.

 

Vamos, continue. Subtraia de você aquilo que não é você.

Tire até sua roupa, faça esta experiência, fique só na essência.

O que se vê? Quem é você?

 

Não se olhe no espelho nem fique vermelho, não é esta a questão.

Vá mais fundo ainda no seu coração.

Jogue fora saudades, lembranças, verdades, esperanças, medos, segredos...

Limpe-se... Esvazie-se... Aceite-se, suporte-se.  Mereça-se!

 

Dói! Como dói este vazio!

Um dia e uma noite. De fio a pavio.

Isto é o mínimo de brio.

Aceitável açoite que qualquer poeta já curtiu.

E um ano quem sabe, já se permitiu?

 

Queremos luz.

Queremos seres iluminados.

E não se coloca um pau de lenha sequer na fogueira.

Será assim a vida inteira?

 

 

Jairo Martins