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Vou deixar de ser escritor. Afinal, sê-lo ou não é uma coisa que se decide assim a bel-prazer, não é mesmo? E por outra, ganhei dinheiro demais a ponto de não saber o que fazer com toda esta fortuna. Além disso, a fama que persistente me persegue também é incômoda. Já não dou um passo sequer na rua sem ser assediado por jornalistas e fãs que querem pagar por autógrafos, até mais do que pago aos guarda-costas para me protegerem deles. Não suporto mais dar tantos autógrafos, conceder tantas entrevistas e receber tanto dinheiro. Principalmente aqui nesta cidade, - em qualquer outra seria a mesma coisa - vocês precisam ver quanto tapinha nas costas, quanto aplauso, quando a gente fala alguma coisa ou declama poemas. Se cada tapinha ou clap-clap daqueles fosse uma moeda, após as apresentações o bobo da corte passaria um caminhão em lugar do chapéu para recolhê-las. Risos por favor, nem que seja por delicadeza, sei que não sou bom de humor. Sinto-me o próprio bobo da corte, estou abominando a mim, a tudo e a todos. Dizer que a um escritor lhe faltam palavras é risível, mas é o caso quando se compreende perfeitamente a pobreza e falácia do sistema em que se vive, que busca, isto sim, as mentiras, as fachadas, as aparências, que sintetizo aqui no adjetivo de excrescências. Desde ser um escritor absorto em suas elucubrações, idiossincrasias e criações até estar frente às luzes dos flashes fotográficos ou câmeras de televisão há distâncias incomensuráveis, e sou bem mais a primeira das situações.
Um silencio enigmático se faz soar na platéia. E o poeta, estático, tateia por entre a escuridão deste som e libera a palavra. Ela explode no palco e se espalha no recinto, como um talco a perfumar os ouvidos. Noutra sala, caminha apressado a estender toalhas sobre as mesas, um garçom. Ele pensa:
- Ah..., fosse eu aquele poeta querido e ouvido por todos. Lá estaria em evidência, recebendo o aplauso e admiração de todos que depois virão ao coquetel e nem sequer tomarão conhecimento de minha presença, exceto para me pedirem outro copo ou prato.
E o poeta, ciente de que se aproxima a hora do coquetel, pensa:
- Ah..., estou louco de fome, fosse eu aquele garçom, pois além de poder comer livremente seus bocados antes de servir o coquetel, ainda ganha alguns trocados com o que faz. E eu, ainda serei imterrompido durante a sequiosa mastigação, para responder gentil a interpelações das mais idiotas às mais inteligentes, e/ou agradecer cumprimentos dos mais sinceros aos mais dissimulados, tendo ainda o cuidado de que não me caia ao goto o repasto, muito mais de não crivar a perdigotos os interlocutores.
O melhor de mim, eu dei! A festa acontece. O anônimo garçom ganha seu extra e o poeta merece, a meu ver, tão somente uma vaia, visto que paradoxalmente, ele faz o favor e ali está como quem o recebe. Até mesmo a companhia elétrica está cobrando a iluminação. Todos pagaram combustível para ali chegarem com seu carros... E assim por diante. E o poeta? Como vai? Como volta? Ele com certeza é o mais tolo de todos por isso mesmo. É a sina. É o dom. E daí? É tão bom que me assassina? Que pouco a pouco, enquanto fico louco, o sistema me quer vivo é o crivo que me faz morrer?
Agora me deixem. Desprezem-me, abandonem-me assim como sempre tem sido. Fazem sentido meus pobres argumentos? Meus sentimentos? Não vou implorar para ser o que sou porque tenho que ser como sou. E todos vós vos divertis com meu dom e castigo. E o meu sorriso amigo, a gota de prazer em vosso ouvido, vou pingar com o que chove em meu destino, meu desatino. Nada vos peço. Que tendes a me dar? Mais um pouco daquilo de que fujo? Sim, para mim olhais como que sujo, porque escapei ao escopo de vossos conceitos, porque vos disse palavras escandalizantes à compreensão. Além do poema, tenho ainda a vos dizer: continuai em vossa especial, maravilhosa e medíocre vida, precisando da inteligência ou criação alheia para com elas vos divertirdes ou alimentardes. Dependeis desses artistas criativos para os enfeites ou ilações de vossas vidas. Mas nós não dependemos de vós. Sobrevivemos, pois necessitamos da própria criação apenas, mesmo a duras penas. E vós necessitais de nós para vos aliviar a pena de assim não serdes. Disse-vos então, em homenagem ao vosso bom coração, esta simples poesia, cuja razão porque se cria é o espaço mensurado, entre ser ou não ser desgraçado, ou desgarrado. Pois vós sois agraciados com o charme de receber estes nós abençoados, com o dom de vos dizer estas coisas escrachantes, para que vos declareis amantes da poesia que entoamos. E por todos os canais, vós que julgais saber bem mais, sabeis menos que o bobo da corte, formais o bolo da corte. Tendes igual sorte, pensais no corte do bolo ou que a morte é um dolo, mas sois a sorte do lobo. Tais condições, talvez somente o poeta a todas intua; e para cada um da corte: uma delas é tua.
(Jairo Martins)
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