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REDENÇÃO AO ESCRITOR |
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Quando a vida parece assim ter acabado, quando tudo parece sem sentido, quando parece que de tudo se está destituído, vale a pena ser escritor, pois de algum jeito ameniza-se a dor. Nada mais resta, nada presta, já não se tem nenhuma intenção, mas caneta e papel dão algum tipo de redenção. É como já não ter condições de suportar-se a si mesmo, de não querer nem fugir e ter que fazê-lo. E com o amargo na ponta da língua dá-se uma lambida na alma que está à míngua, já nada buscando ou querendo, apenas ardendo. Este ígneo estado de ser faz chorar, faz crescer. E depois, lá daquelas cinzas, na poeira a renascer, sobra um reticente talvez... Não há tempo nem local apropriado e mesmo dentro da costumeira cidade, é como se aí nunca se tivesse estado. Não há verdades absolutas e além do deus pregado, há muitas lutas que nada têm provado. E o prego que se instala, bate no fundo de um coração que não bate. Estala! A bala mortífera do pensamento pensa atingir o cérebro, mas por um breve momento, o escudo da criatividade deixa escapar o verbo que se chama liberdade e o incêndio se alastra estupendo, queimando assim toda brasa que se chamava minha casa. E, se o lar tem por teto as estrelas, sem contá-las há que sabê-las como balas do pensamento, metralhando a todo instante um cérebro arfante que já não quer pensar. Apesar disto, agora não há pesar nisto, porque muito embora se doa, um ser se perdoa pelo simples sim de ter que assim ser, sem deter nada de si. Com isto construo aquilo que faz a alegria ou o opróbrio de ser escritor. Vejo o pobre que sou assim louco de dor, e transformo o fracasso em cada linha que traço num pouco de louvor. Ao escritor eu o faço, àquele que tem valor, pois que partilha da mágoa, da lava deste vulcão, que lava com estas palavras as águas do coração. Não encerro aqui estras breves linhas, pois me falta dizer que não detenho comigo o verdadeiro desenho, nem a fotografia, nem imagem qualquer do que me espanta de mim. Quero aqui me esconder até bem derreter o que queima enfim. E teima assim esta palavra em aqui vir, arquivo de ir a qualquer outro lugar. Nem pretendo acessar até este também. Mas é escrever que dá o alívio disto, disto mesmo que é riscar o papel onde se deixa as dúvidas, se de mel ou de fel, mas de fato tornam-se as únicas que não registrei, as túnicas que usei e que não escolhi no guarda-roupas, que abateram-se sobre mim como loucas, como se tivesse que as vestir. Grosso manto que deito sobre as chamas que me queimam para ver se as apago, ou que se queime até mesmo o manto e seque afinal o meu pranto. E, se escrever outra coisa é porque não queimei...
(Jairo Martins)
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