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Este é um daqueles raros e inesquecíveis momentos nos quais se é acometido por
inefável estado de espírito, e me pergunto: donde vem? A despeito de motivos
tantos para que não, de repente, parece mesmo que desaba céu sobre cabeça. O
repicar da chuva no telhado, somado a suaves acordes das sonatas para cello e
piano (OP's 38 & 99) de Brahms sonoplastizam regiamente o instante que me foge
dãos mãos, ao querer eternizá-lo no relato feito a nervosos dedos pelas teclas.
Mentalmente compartilho música e momento com pessoas que, embora povoem minha
lembrança, estão ausentes. Reduzamos tal fato à mera masturbação mental dum
poeta, mas com certeza seu gozo não provém de tolo ato. É mesmo e tão somente
aquele algo, silente e latente no coração de bem poucos, de uns loucos cientes
que poeira são, que o vento da vida inspirada sopra pra onde bem quer. Talvez
isso faça do poeta um companheiro de si mesmo, um solitário capaz de encontrar
neste espelho um eco, ao salpicar em letras um só grito espalhado no branco
deserto do papel. E quem bebe o mel? Talvez Brahms com suas sonatas, talvez a
chuva dissolvendo esta resposta, talvez aquele que recosta seu olhar nas páginas
dum livro... E abelha? Quem é a abelha? Vive a voar de flor em flor, destilando
de breves beijos um âmbar doce mar pelo qual navega um leitor... O escritor?
Ora, um abelhudo que mordeu um naco desse favo, cravou seu ferrão na palavra e,
feito abelha, morreu logo a seguir.
Jairo Martins
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