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Para Johannes BRAHMS ( * 1833 )

 


Este é um daqueles raros e inesquecíveis momentos nos quais se é acometido por inefável estado de espírito, e me pergunto: donde vem? A despeito de motivos tantos para que não, de repente, parece mesmo que desaba céu sobre cabeça. O repicar da chuva no telhado, somado a suaves acordes das sonatas para cello e piano (OP's 38 & 99) de Brahms sonoplastizam regiamente o instante que me foge dãos mãos, ao querer eternizá-lo no relato feito a nervosos dedos pelas teclas. Mentalmente compartilho música e momento com pessoas que, embora povoem minha lembrança, estão ausentes. Reduzamos tal fato à mera masturbação mental dum poeta, mas com certeza seu gozo não provém de tolo ato. É mesmo e tão somente aquele algo, silente e latente no coração de bem poucos, de uns loucos cientes que poeira são, que o vento da vida inspirada sopra pra onde bem quer. Talvez isso faça do poeta um companheiro de si mesmo, um solitário capaz de encontrar neste espelho um eco, ao salpicar em letras um só grito espalhado no branco deserto do papel. E quem bebe o mel? Talvez Brahms com suas sonatas, talvez a chuva dissolvendo esta resposta, talvez aquele que recosta seu olhar nas páginas dum livro... E abelha? Quem é a abelha? Vive a voar de flor em flor, destilando de breves beijos um âmbar doce mar pelo qual navega um leitor... O escritor? Ora, um abelhudo que mordeu um naco desse favo, cravou seu ferrão na palavra e, feito abelha, morreu logo a seguir.

Jairo Martins