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A hora inesperada, aquela da inspiração, tão almejada,
surge assim de sopetão.
Em alegria ou agonia lacrimam as palavras
E na hora da poesia, a mais bela das lavras:
A hora de definir em espontânea expressão
um pensar ou sentir que legue a outrem compreensão,
e talvez além disso bem mais:
A descoberta de ler o que se tem latente,
esse toque de alguém capaz de dizer o que se sente.
A nova idéia ou boa nova, até o jeito de dizer coisa antiga,
também isto nos prova que a poesia é cantiga.
Percorre ventos e povos e nos toca aos ouvidos
com seus acordes sempre novos, fazendo-nos possuídos
por este momento terno com perfume de eterno.
Um minuto fugaz ou passageiro que nos toma por inteiro,
e que depois vai passar, eu sei que vai.
Mas o poeta é obreiro, com as letras tece a rede,
e aquele momento dali não sai.
Estende a rede no papel, e alguém ali mata sua sede,
bebe uma gota do mel, vislumbra um pedaço do céu.
Ousadia dos poetas, dizerem-se donos de suas ilações.
Tolice de leitores e doutores, nominarem preferidos autores.
A poesia é que os toma para si, alcançando próprias pretensões.
É como chuva inesgotável nesta hora a nos cingir,
Gota a gota inefável, que por sobre nós ao cair,
Tranforma-se em lágrima-letra, molhando o poeta de ilusão
e ele com sua caneta pensa ser dono dessa ablução.
A poesia, toda ela, sempre esteve muito solta por aí.
É como luz em fresta de janela que aparece às vezes por aqui.
Quem prende o seu raio com as letras em entrevero
é chamado de poeta ou escritor.
E me olha a poesia com sorriso matreiro
e me deixa pensar que sou seu autor.
Jairo Martins
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