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Um belo dia disseram,
com certa razão de fato,
que trovador e poeta não eram
homens de comida no prato.
Melhor é caniço e uma isca
à beira de mar ou de rio.
Aí pelo menos se arrisca
a não ter o prato vazio.
Creio que a poesia é anzol
e o poeta é um peixe ferrado.
À beira do céu ou do sol
vive sempre bem alimentado.
A poesia é uma linda estrada
com um nome de grande valor,
mas se a escrita for cerceada,
o poeta é então trovador.
Discutido foi o tema,
não li nada sobre isso.
Inspiração só entra em cena
como peixe no caniço.
Não se compara o escritor
ao vivente que espera,
assim como o pescador,
no anzol sua quimera.
Não se compara a poesia
nem o fruto que aí brota,
a resultado de pescaria
que cabe dentro de compota.
Muito bom é peixe frito,
pode dar água na boca.
Mas os poetas têm escrito
sempre com a alma louca.
O pescador traz a comida
que às vezes é bem pouca.
Vale mais é a guarida
do trovador com a fala rouca.
Nunca, nunca troque a vida
pelo que se leva em bolsa,
pois se o prato tem comida
vai ter que lavar a louça.
Jamais troque a poesia
por dinheiro, coisa nenhuma!
Tudo vira em agonia
e a certeza é só uma:
Ser poeta não se escolhe,
no tom da vida é que tu vives.
Esta rede não se encolhe,
suas malhas têm ourives.
E se tiveres poesia
também tu és um pescado.
Vai à porta da peixaria!
Mantém o povo alimentado.
E se tiveres desistido,
malhas da rede terão falhado.
O peixe fica apodrecido,
ninguém mais come pescado.
Ergue de novo esta tese,
mergulha no mar revolto.
Mesmo que poesia não pese,
o peixe jamais será solto.
Sina que assino embaixo,
poeta é peixe, poesia é uma rede.
Resvalo, revolvo e me encaixo
nest'água que mata minha sede.
Jairo Martins
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